HERÓI DOS ARES

As pessoas que estão com mais de 40 anos certamente se lembrarão do trágico e marcante incêndio ocorrido no dia 24 de fevereiro de 1972, no Edifício Andraus - centro de São Paulo. Ainda a região do centro novo (como era conhecido, pois fica oposto a Praça da Sé, o centro velho) reunia as principais empresas e instituições a sua volta, concentrando um grande número de prédios comerciais.

O Andraus, com 30 andares, era um desses prédios e considerado um dos mais modernos e o único a possuir um heliponto na época.

O incêndio começou por volta das 13 horas e calcula-se que havia mais de 2000 pessoas no interior do prédio neste momento. Muitas conseguiram descer pelas escadas alcançando a rua, porém a rapidez da propagação das chamas impediu a fuga de mais de 500 pessoas que se viram obrigadas a subir para o topo do prédio para salvar suas vidas.

A tragédia estava anunciada. Não havia como os bombeiros salvar as pessoas presas no topo do edifício.

O impacto da tragédia fez com que um grande número de pessoas acorressem ao local na tentativa de ajudar, de alguma forma, as pessoas presas dentro do Andraus: bombeiros, médicos, policiais, enfermeiros, escoteiros e populares em geral. Porém, dentre todas, uma pessoa teve um destaque especial: Olendino Francisco de Souza.

Na época Olendino de Souza era piloto de helicóptero do Governo do Estado de São Paulo, servindo o então governador Laudo Natel (1971-1975), e utilizava um Bell 204B (UH-1H na versão militar), equipamento bastante raro na época no Brasil e que pode transportar de 8 a 9 passageiros e 2 tripulantes. Ao saber do incêndio sua primeira idéia foi utilizar o helicóptero como um grande ventilador sobre o topo do edifício, afastando a fumaça e as chamas das pessoas, como contam seus filhos.

Sobrevoando o Andraus concluiu que as quase 500 pessoas presas no topo do edifício iriam morrer devido à grande temperatura, a fumaça e ao fogo. Pousou seu helicóptero na Praça Princesa Isabel, local próximo ao Andraus, e se prontificou a tentar pousar no heliponto do Andraus para resgatar as pessoas. Para isso precisava que algum bombeiro desembarcasse no topo do edifício para organizar as pessoas e evitar uma tragédia maior. O Capitão Hélio Caldas acompanhado de mais três bombeiros se prontificaram a tentar o perigoso e inédito resgate.

Olendino de Souza, piloto de reconhecida habilidade, pousou no topo do Andraus 32 vezes, resgatando 357 pessoas. Este feito heróico lhe rendeu as mais altas condecorações nacionais e internacionais, inclusive pela ONU.

Aposentou-se nos anos 90 residindo na cidade de Bauru (SP), porém sua paixão por voar helicópteros fez com que se dedicasse ao aeromodelismo, tornando-se um hábil piloto de helimodelos e mais hábil, ainda, mecânico de aeromodelos. Freqüentava o Clube TOSI, na cidade de Bauru, onde era muito querido e respeitado, tanto por seus feitos como por suas habilidades de pilotagem e mecânico. "Todos vinham aqui em casa pedir ajuda a meu pai. Sempre que um aeromodelo quebrava, eles corriam para cá." - comentou sua filha Sonia.

Olendino Francisco de Souza faleceu dia 15 de janeiro de 2008, vitima de derrame. Casado, tinha dois filhos e dois netos. Tinha 79 anos.

No incêndio do Andraus morreram 16 pessoas e foi a primeira tragédia de grandes proporções transmitida ao vivo pela televisão e em rede nacional. O incêndio levantou pela primeira vez no Brasil a discussão sobre a segurança na construção de edifícios, algo até então negligenciado. O Andraus também serviu como experiência para uma outra tragédia ainda maior que ocorreu dois anos depois (1974), o incêndio do Edifício Joelma.

JLA

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